Como eu gastava tudo o que ganhava (e por que achava normal)
Por que resolvi falar sobre dinheiro
Eu criei essa categoria no blog porque esse assunto transformou minha vida. E quando eu digo "transformou", não estou falando de ficar rico ou de ter uma fórmula mágica. Estou falando de sair de uma vida de ansiedade, de nervosismo no fim do mês, de contas atrasadas — e chegar em um lugar de tranquilidade. De dormir em paz sabendo que as contas estão em dia e que existe uma reserva ali, caso algo dê errado.
A ideia dessa série é contar minha história desde o começo, desde a época em que eu não sabia nada sobre dinheiro, passando pela fase de organização, até chegar nos investimentos que faço hoje. Aos poucos, post a post. Sem pressa, do mesmo jeito que a jornada foi na vida real.
Um aviso importante: eu não sou profissional de finanças. Sou uma pessoa comum que foi aprendendo na base da tentativa e erro — muito erro, aliás. O que eu compartilho aqui é a minha experiência pessoal. Pode servir de inspiração, pode te fazer pensar em algo diferente, mas nunca tome como uma recomendação. Cada pessoa tem uma vida, uma realidade, um contexto completamente diferente. O que funcionou para mim não necessariamente funciona para você.
O que eu precisei viver para entender
Ninguém me ensinou a lidar com dinheiro. Nem a escola, nem em casa — não por culpa de ninguém, mas porque simplesmente não fazia parte da cultura. E quando você não aprende, o caminho natural é gastar tudo. O dinheiro entra e sai. E você acha que é assim mesmo, que é assim pra todo mundo.
Esse é o aprendizado central dessa primeira parte: a percepção de que eu estava no piloto automático, seguindo um padrão que nunca ninguém tinha me ensinado a questionar.
Crescendo sem referência financeira
Eu nasci em uma família de classe média. Meus pais me criaram com bastante sacrifício e conseguiram me pagar uma parte dos estudos em escola particular. O ensino médio, que na minha época chamava colegial, eu fiz em escola estadual. Eles fizeram o melhor que podiam, com o que tinham.
Mas tinha um contexto importante: naquela época, a inflação no Brasil era absurdamente alta. O dinheiro perdia valor se ficasse parado. Então a lógica em casa era clara — recebeu o salário, vai fazer a compra do mês. Se precisar de alguma coisa, compra logo. Guardar dinheiro não fazia muito sentido quando ele valia menos a cada dia que passava.
Meus pais tinham um pouco na poupança, que era praticamente o único investimento que as pessoas conheciam. Foram juntando aos poucos, com muito esforço, até que meu pai conseguiu comprar a casa própria. Essa era a grande conquista possível na vida. E eu cresci achando que era assim que as coisas funcionavam: você trabalha, gasta, paga as contas, e se sobrar algo no fim, talvez um dia compre sua casa.
Eu não aprendi nada sobre investimento. Não porque meus pais não quisessem me ensinar — eles simplesmente não tinham o que ensinar. Não fazia parte do repertório.
Meus primeiros trabalhos e meus primeiros gastos
Lá pelos 16, 17 anos, comecei a trabalhar. E foram experiências bem variadas. Trabalhei em uma loja de componentes eletrônicos, separando peças. Fazia bicos com informática — montava planilhas de lista de preços para um tio que tinha uma distribuidora, digitava trabalhos de faculdade e TCC para outras pessoas. Sempre me virando.
Depois trabalhei em uma locadora de fitas VHS. Confesso que foi um dos empregos mais legais que tive naquela idade. Eu podia assistir qualquer filme. Hoje parece bobagem, porque está tudo disponível no celular, no notebook, em qualquer lugar. Mas naquela época, para assistir um filme, você precisava alugar a fita cassete. Era outro mundo. E eu aproveitei muito.
O ponto é: todo dinheiro que eu ganhava, eu gastava. Comprava uma roupa melhor para sair, ia a uma "danceteria", dava uma passeada com os amigos. Como eu morava com meus pais, não tinha conta de casa para pagar. O dinheiro era "meu" e eu usava inteiro. Não passava pela minha cabeça guardar. Por que guardaria?
O concurso, o emprego, e o ciclo de ganhar mais para gastar mais
Eu sempre gostei de tecnologia e informática, mas na hora de escolher a faculdade, optei por Direito. O objetivo era claro: passar em um concurso público. Comecei a estudar para a Receita Federal, fui fazendo outros concursos no caminho, e acabei passando em um concurso de nível "ensino médio", entrando em uma posição bem básica no início.
E foi aí que o ciclo começou a se intensificar. Com um salário fixo e mais robusto, veio a conta no banco, o talão de cheque, o cartão de crédito. E a ideia continuava a mesma: gastar. Comprar as coisas que eu gostava, parcelar no cartão, fazer crediário. Eu ajudava meus pais — e me considero privilegiado por ter podido morar com eles nesse período — mas o dinheiro nunca sobrava. Tudo o que entrava, saía.
Fui evoluindo na carreira, assumindo posições maiores, ganhando mais. Mas o padrão não mudava: ganhava mais, gastava mais. Comprei uma moto a prestação. Financiei um carro. Depois veio uma casa alugada, depois um financiamento. Tudo a prazo. Tudo esticando a corda.
Ganhava mais e gastava mais. Parecia que eu estava progredindo — carro novo, casa, cartão com limite alto. Mas na prática, eu estava andando numa esteira: correndo sem sair do lugar.
Quando o nervosismo virou rotina
A vida foi acontecendo, como acontece com todo mundo. Mudanças, novas fases, novas responsabilidades. E a situação financeira ia junto, sempre no limite. Eu não ganhava mal para a minha idade, mas vivia como se ganhasse o dobro. O cartão de crédito estava sempre no teto. Tinha contas atrasadas. Tinha aquele jogo de empurrar uma conta para o mês seguinte para conseguir pagar a deste mês.
Todo fim de mês era um nervosismo. Uma ansiedade danada. Precisava negociar com banco, com loja. Refinanciar. Parcelar a fatura do cartão. E no mês seguinte, tudo de novo.
Isso durou anos. Muitos anos. Passou dos meus 20, passou dos meus 30. E o mais impressionante é que eu não achava que estava fazendo algo errado. Eu achava que era assim mesmo — que a vida era feita para trabalhar e pagar contas. Que todo mundo vivia apertado. Que o dinheiro nunca dava para ninguém.
E aqui vai algo que eu só entendi depois: essa situação não afeta só o bolso. Afeta a autoestima, a saúde mental, o humor, os relacionamentos. Quando você vive no vermelho, tem uma sombra que te acompanha o tempo todo. Você não descansa de verdade, porque no fundo sabe que a conta vai chegar.
O dia que alguém me ajudou a enxergar
A ficha não caiu sozinha. Eu gostaria de dizer que tive um momento de iluminação, mas a verdade é que precisei de ajuda. Em um determinado momento da minha vida, tive a sorte de conviver com alguém que tinha uma relação completamente diferente com o dinheiro. Uma pessoa organizada, que planejava, que sabia exatamente o que entrava e o que saía.
E essa pessoa, com muita paciência e firmeza, me ajudou a olhar para a minha situação de frente. A botar a bola no chão e fazer uma pergunta simples: "Você está trabalhando há mais de dez anos. O que você construiu?"
A resposta doeu: eu tinha uma casa financiada, um carro financiado e uma montanha de dívida. Era isso. Mais de uma década de trabalho e eu não tinha construído nada que fosse realmente meu.
A percepção que mudou tudo foi entender que existem dois lados da engrenagem: ou você usa o sistema a seu favor, ou o sistema usa você. Eu estava sendo moído — trabalhando para que o dinheiro circulasse na mão de quem sabia o que fazer com ele. Enquanto eu ficava sempre no zero.
E foi aí que eu entendi algo fundamental: o mundo é feito para que a gente consuma sem pensar em como vai pagar. Essa é a engrenagem. O crédito fácil, o parcelamento em dez vezes "sem juros", o limite do cartão que sobe sozinho. Tudo isso existe para manter a roda girando. E eu estava do lado errado dessa roda.
Essa percepção abriu o mundo para mim. Não foi um momento mágico, foi um processo. Mas quando a ficha caiu, caiu de vez.
O que ficou dessa fase
Essa parte da minha vida — da adolescência até esse momento de virada — me ensinou muito. Não pela via do acerto, mas pela via do erro. Eu vivi na pele o que acontece quando você não tem educação financeira. Quando ninguém te ensina. Quando o assunto simplesmente não existe na sua formação.
Não guardo ressentimento de nenhuma fase. Cada momento teve seu papel, cada pessoa que esteve comigo contribuiu de alguma forma. Mas se eu pudesse voltar e dizer uma coisa para o meu eu de 20 anos, seria: presta atenção no dinheiro. Não porque ele é tudo, mas porque sem ele organizado, tudo fica mais difícil.
O dinheiro não é um deus. Mas é uma ferramenta poderosa para ter tranquilidade, estabilidade e liberdade para fazer escolhas. Quando ele está desorganizado, ele vira uma fonte de sofrimento. E eu sei disso porque vivi assim durante muito tempo.
E agora?
Esse foi o ponto de partida. A história de como eu cheguei no fundo — não um fundo dramático, de novela, mas aquele fundo silencioso de quem vive apertado todo mês e acha que é normal.
No próximo post, vou contar a parte que realmente mudou minha vida: como eu comecei a organizar meu orçamento, eliminar dívidas e guardar os primeiros R$50. Parece pouco, mas quando eu vi aquele dinheiro parado no banco no fim do mês — inteiro, sem precisar mexer — foi uma das sensações mais bonitas que eu já tive.
E você? Se identificou com alguma parte dessa história? Já viveu (ou vive) essa sensação de trabalhar o mês inteiro e no fim não sobrar nada? Compartilha nos comentários. Essa série é para a gente trocar experiências de verdade — sem julgamento, sem tecnês, sem fórmula mágica. Só gente real contando o que aprendeu.
Próximo post da série: O dia que a ficha caiu: como comecei a organizar minha vida financeira
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